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29 de julho de 2011

Segura, Gonzaguinha!

Emocionalmente, no momento, nós, aqui do Boteco do Valente, não me encontramos inspirados o suficiente para falar deste maravilhoso compositor e cantor de nossa MPB. Só queremos expressar em poucas palavras, que na nossa modesta opinião, não existe uma composição sequer deste artista, que não seja uma belíssima obra musical.  Mas quem é ele? Vocês vão ter a imensa alegria de conhecê-lo agora:

Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior nasceu em 22 de setembro de 1945, no Rio de Janeiro, filho legítimo de Luiz Gonzaga, (o velho Lua) o rei do baião, e Odaléia Guedes dos Santos, cantora do Dancing Brasil.

"Venho de Odaléia, uma profissional daquelas que furam cartão e de vez em quando sobem no palco; ela cruzou com meu pai e de repente eu vim" (Gonzaguinha)

A mãe morreu de tuberculose ainda muito moça, com apenas 22 anos de idade, deixando Gonzaguinha órfão aos dois anos, e o pai, não podendo cuidar do menino porque viajava por todo Brasil, entregou-o aos padrinhos

"Dina (Leopoldina de Castro Xavier) e Xavier (Henrique Xavier), baiano do violão das calçadas de Copacabana, do pires na zona do mangue, morro de São Carlos foram eles que me criaram e por isso eu toco violão. (Gonzaguinha)

As primeiras letras Gonzaguinha aprendeu numa escola local, mas as verdadeiras lições de vida recebeu pelas ladeiras do morro. Quando garoto, para conseguir algum dinheiro, carregava sacolas na feira.

Moleque Luizinho – seu apelido de infância, ia aprontando das suas. Pipas, peladas, bolinha de gude, pião e os acidentes da infância. Como as três vezes em que furou o olho esquerdo. Na primeira, com uma pedrada, depois, com um estilingue e, na quina da cama, com isso perdeu 80% da visão desse olho.

No carnaval fugia com Pafúncio, um vendedor de caranguejos que morava nas redondezas e era membro da ala de compositores da Unidos de São Carlos, a partir daí, o samba estaria definitivamente em sua vida. Nas ruas do Estácio, Gonzaguinha ia crescendo, entre a malandragem dos moleques de rua e o carinho da madrinha.

Do pai, recebia o nome de certidão, dinheiro para pagar os estudos e algumas visitas esporádicas. Imerso no dia-a-dia atribulado da população, Gonzaguinha ia aprendendo a dureza de uma vida marginal, a injustiça diária vivida por uma parcela da sociedade que não tinha acesso a nada.

O aprendizado musical se fez em casa mesmo, ouvindo o padrinho tocar violão e tentando fazer o mesmo: "Sempre toquei um instrumento e poderia chegar a tocar bem, sendo um músico profissional, coisa que não sou. Sou um compositor e um intérprete que também toca violão, mais não sou músico nem tenho intenção de me arvorar a sê-lo" (Gonzaguinha)

Quando pequeno, Gonzaguinha ouvia Lupicínio Rodrigues, Jamelão e as músicas de seu pai. Gostava de bolero e era assíduo freqüentador de programas sertanejos. Ouvia também muita música portuguesa, pois D. Dina sua madrinha e mãe adotiva, era filha de portugueses e manteve-se ligada às tradições familiares.

Aos catorze anos, Gonzaguinha escrevia sua primeira composição: Lembranças da Primavera. Pouco mais tarde , compôs Festa e From U.S of Piauí, que seu pai gravaria em 1967.


Em 1961, Gonzaguinha, que estava completando 16 anos, foi morar com o pai em Cocotá. Xavier e Dina não podiam dar estudos para o garoto, que queria estudar economia.

Neste ano Gonzaguinha estudou muito, desde então jamais repetiu um ano, lia todos os jornais e guardava tudo num saco de estopa, ele dizia que esses jornais podiam ajudar ele nos estudos. Só depois de formado é que ele jogou tudo fora.

Trancado no quarto, estudava economia e tocava violão. Quando saía, ia para a praia jogar futebol, sua outra paixão. Como já fizera no morro de São Carlos, esquecia dos horários e nunca vinha almoçar.

Em dezembro de 61, ocorreu o primeiro acidente automobilístico de sua vida, em viagem com o pai e uma amigo, a caixa de mudança do carro enguiçou, isso ocorreu no Rio, em direção a Miguel Pereira, Gonzagão ficou um mês hospitalizado, e Gonzaguinha só sofreu um grande susto. Os desentendimentos com Helena, esposa de Gonzagão, fizeram com que o menino acabasse sendo interno em um colégio. Talvez tenha sido a partir daí que o "homem" Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior tenha começado a se delinear. Não só concluiu o Curso Clássico, como ingressou na Faculdade de Ciências Econômicas Cândido Mendes (Rio de Janeiro). Aquele que tinha tudo para não dar em nada, começava a mostrar o cidadão consciente social e politicamente.

O começo da amizade com Ivan Lins e alguns outros teve inicio na rua Jaceguai, na Tijuca onde morava o psiquiatra Aluízio Porto Carrero, um homem que gostava de levar pessoas a sua casa para longas conversas, jogos de cartas ou uma roda de violão.

Foi nesta casa que Gonzaguinha conheceu Ângela, sua primeira esposa, mãe dos seus dois filhos mais velhos, Daniel e Fernanda . Das rodas de violão na casa do psiquiatra nasceu o M.A.U. (Movimento Artístico Universitário) e dele faziam partes nomes como Ivan Lins, Aldir Blanc, Paulo Emílio, César Costa Filho. "Éramos um Grupo com pretensões de romper as barreiras do mercado de trabalho, com a consciência de que os festivais não projetavam ninguém" (Ivan Lins). O MAU acabaria sugado pela TV Globo que em 1971 lançava o programa "Som livre exportação".

Nos primeiros dois meses as coisas caminharam bem e o grupo fez grande sucesso. Passando esse período, na hora da renovação do contrato, a Globo só queria Ivan Lins, Gonzaguinha e César Costa Filho. No início eles procuraram manter-se unidos , "na base do ou assina todo mundo ou ninguém assina". Passados os primeiros dias, as grandes somas envolvidas, as diferenças pessoais e outros fatores cindiram o grupo. O programa continuou por mais algumas semanas, comandado por Ivan lins, que foi o que mais vacilou na defesa do grupo. "Não era uma questão de eu ser mais ou menos forte que o Ivan. É uma questão estrutural. Só isso. A minha imagem de antipatia não permitia que as pessoas tentassem me cooptar. Isso me deixava muito distante. (Gonzaguinha)

Foi nessa época que se difundiu a imagem de Gonzaguinha como um artista agressivo, chegando um jornalista a chamá-lo de "cantor rancor". Para o compositor, sua agressividade foi criada pelo sistema para ele vender mais.

Em 1973, Gonzaguinha participou do programa Flávio Cavalcanti apresentando a música Comportamento Geral num dos concursos promovidos pelo programa. Os jurados ficaram apavorados com a letra que dizia "Você deve aprender a baixar a cabeça e dizer sempre muito obrigado/ São palavras que ainda te deixam dizer por se homem bem disciplinado/ Deve pois só fazer pelo bem da Nação tudo aquilo que for ordenado".

Muita polêmica, uma advertência da censura mas, em compensação, o compacto gravado pelo compositor, que estava encalhado nas prateleiras das lojas, esgotou-se em poucos dias e logo Gonzaguinha pulava do quase anonimato para as paradas de sucesso na Rádio Tamoio e era convidado para gravar um novo disco.

Como era de se prever naqueles anos de chumbo, a divulgação da música logo foi proibida em todo o território nacional e Gonzaguinha "convidado" a prestar esclarecimentos no DOPS. Seria a primeira entre muitas visitas do compositor ao orgão público. Para gravar 18 músicas, Gonzaguinha submeteu 72 à censura - 54 foram vetadas!  Apesar de toda a perseguição, Gonzaguinha nunca deixou de divulgar seu trabalho: quer seja em discos onde driblava os censores com canções alegóricas, quer seja em shows onde, além de cantar as músicas que não podiam ser tocadas nas rádios, Gonzaguinha não se continha e exprimia suas opiniões e sua preocupação com os rumos que a nação tomava.
 
Em 1975, Gonzaguinha dispensou os empresários e essa atitude foi fundamental para sua carreira, segundo Gonzaguinha a vantagem de trabalhar independente dos empresários está nos contatos que o artista mantém com várias pessoas, o que concorre para recuperar se a base humana do trabalho. O ano de 1975 foi particularmente importante na vida do compositor: tendo contraído tuberculose, Gonzaguinha viu-se obrigado a passar oito meses em casa e aproveitou o tempo para meditar e refletir sobre si mesmo. Neste período acabou chegando a algumas conclusões importantes.

"Achei que devia retomar toda uma espontaneidade em termos de apresentação, de estar no palco como se estivesse em qualquer outro lugar" (Gonzaguinha)

O ano de 1975 também marcou o início das suas excursões pelo Brasil, em que rodou todo o país de violão. Com isso, conseguiu solidificar as bases nacionais de sua arte e descobriu a importância de seu pai, na música popular brasileira.

Em 1976, Gonzaguinha gravou o LP Começaria Tudo Outra Vez. O disco, de acordo com o próprio autor, representou a capacidade de voltar ao início da carreira, retomar a espontaneidade perdida e "assumir a coerência de um trabalho que vem se estendendo há muito tempo"

Em 1981 nasceu Amora Pêra, filha de Gonzaguinha e da Frenética Sandra Pêra. Depois disso, sua carreira constituiu um coleção de sucessos, tanto nas apresentações ao vivo como nos diversos LPs que lançou, entre os quais Gonzaguinha da vida (1979), Coisa Mais Maior de Grande (1981), Alô, Alô Brasil (1983), em toda essa trajetória, Gonzaguinha tem demonstrado, ao lado de qualidades artísticas indiscutíveis, uma grande coerência de idéias sobre a arte, a vida e a dimensão política do homem.

Seus últimos 12 anos de vida, Gonzaguinha passou-os ao lado de Louise Margarete Martins  - a Lelete. Desta relação nasceu Mariana, sua caçula. Até hoje Lelete e Mariana vivem em Belo Horizonte, cidade onde Gonzaguinha viveu durante dez anos.

A vida em Minas, mais calma, com longos passeios de bicicleta em torno da lagoa da Pampulha, marcou um período mais introspectivo de sua carreira. O músico dedicava-se a pesquisar novos sons dividindo-se entre longos períodos em casa e demoradas turnês de shows pelo país.

A mais importante dessas turnês talvez tenha sido com o show "Vida de Viajante", ao lado do pai Luiz Gonzaga, em 1981. Não apenas um show, "Vida de Viajante" selou o reencontro de pai e filho, a intersecção de dois estilos, o Brasil sertanejo do baião encontrando o Brasil urbano das canções com compromisso social e uma só paixão - o palco.

Se "Todo artista tem de ir aonde o povo está", lá estavam pai e filho deixando mágoas, desavenças, ressentimentos na poeira das estradas. Viajando juntos por quase um ano, mais do que se perdoaram - tornaram-se amigos. Não houve reconciliação, houve compreensão.

O acidente que tirou a vida de Luiz Gonzaga Júnior, aconteceu na manhã do dia 29 de abril de 1991 , ocorrido no quilômetro 30 da BR-280, entre os municípios de Renascença e marmeleiro, na região sudoeste do Paraná e a cerca de 420 quilômetros de Curitiba.

O Monza dirigido por Gonzaguinha bateu de frente no caminhão F-4000 com placa de Marmeleiro(PR), Gonzaguinha ainda chegou a ser levado a policlínica São Francisco de Paula, em Francisco Beltrão onde chegou sem vida. Os passageiros que viajavam com o Cantor, seu empresário Renato Manoel Duarte e Aristide Pereira da Silva, foram internados na mesma policlínica em estado de coma, ambos tiveram traumatismo craniano. O Renato foi o único sobrevivente.

Segundo um patrulheiro da policia rodoviária estadual, disse que possivelmente o sol atrapalhou a visão do motorista da caminhonete , pertencente a um matadouro. O motorista cruzou a pista para entrar numa estrada de terra que conduz ao matadouro e atingiu o Monza. No asfalto, ficou a marca da freada do automóvel por quase 50 metros.

Gonzaguinha seguia em destino a Foz do Iguaçu onde de lá tomaria um avião com destino a Florianópolis, para a realização de seis shows em Santa Catarina.

Ney Matogrosso

“ É tão súbito que nem sei o que dizer. Éramos amigos e há, pouco tempo, chegamos a estar bem próximos mesmo sem ter trabalhado juntos. Mais do que seu trabalho, gostava dele como pessoa”

Fagner

“ Era muito ligado a ele e a toa sua família. Tudo que posso dizer nesse momento é que estou chocado”

Joanna

“ Gonzaguinha era um poeta contemporâneo, que abordava a alma feminina de uma forma completa. Através da palavra, desnudava o universo da mulher> Ele tinha a sensibilidade à flor da pele. Na minha obra é de extrema importância. Sempre esteve presente nos meus trabalhos, desde que fez a música agora para o meu primeiro LP”

Simone

“ Era uma pessoa de quem gostava muito.Tinha um grande talento. Estou muito chocada agora para dizer para dizer mais alguma coisa”

 
Arquiles (MPB-4)

“ Nós éramos muito amigos. Sempre tivermos uma ligação forte porque o MPB-4 gravou muitas músicas dele. Ele nunca nos negou uma composição inédita. Nossas posições políticas também eram parecidas”

Abel Silva

“ A música brasileira perde um grande compositor de apelo popular, que dizia ass coisas com muito precisão e coragem. As canções que ele deu para a Bethânia por exemplo vão ficar. Na última vez que o vi, ele disse: ‘tenho saúde, resto a gente tira de letra’.”

Nana Caymmi

“Tinha um carinho grande pelo compositor e pelo ser humano. Vai ficar faltando um pedaço. À importância da obra dele é enorme. Com o tempo sentiremos falta de sua música. Ele lutava pela pátria. Sempre fui sua amiga e era muito ligada a ex-mulher dele, Ângela .Nossos filhos cresceram juntos. È horrível e inacreditável que isso tenha acontecido

Gonzaguinha tanto fez das das suas lá no Morro de São Carlos, que no Carnaval do Grupo de Acesso A do RJ em 2010, um de seus versos de Com a Perna no Mundo, "TEU MENINO DESCEU O SÃO CARLOS", foi lembrado pela G.R.E.S Estácio de Sá , com o samba-enredo Deixa falar. A Estácio é isso ai! Eu visto esse manto e vou por aí...


Ê, FAVELA!

DA BATUCADA, DO MEU GRANDE AMOR
EU SOU MALANDRO E FAÇO HISTÓRIA
NA ZONA DO MANGUE ONDE TUDO COMEÇOU

NASCIA EM FORMA DE ORAÇÃO
NAS MESAS DO CAFÉ, UMA CANÇÃO
BAMBAS QUE O BERÇO DO SAMBA UM DIA EMBALOU
VERSOS DE ISMAEL, "SE VOCÊ JURAR"
TE DOU EM POESIA, "A DONA DO LUGAR"
VAI MINHA INSPIRAÇÃO... DEIXA FALAR

EU VOU, "BEM JUNTO AO PASSO"
BEM NO COMPASSO DA MARCAÇÃO
EU SOU DO "VELHO ESTÁCIO"
E SE MORRER É DE EMOÇÃO

A "CADA ANO", "VÊ SE PODE"
MEU "PARAÍSO" É MAIS FELIZ
FEZ DA ARTE NEGRA ROMARIA
SE VESTIU DE FANTASIA E CRIOU SUA RAIZ

DO TERREIRO GRANDE, A DOCE VOZ
QUE EMOCIONA A TODOS NÓS
"TEU MENINO DESCEU O SÃO CARLOS"
BROTA "MELODIA" DESSE CHÃO

"EU VI, AI MEU DEUS EU VI"
A MINHA ESCOLA LEVANTAR A MULTIDÃO
E "QUERO A ARTE PRO MEU POVO
SER FELIZ DE NOVO", MEU LEÃO

ESTÁCIO É O MEU AMOR
E ESSE AMOR TEM SEU LUGAR
UM CORAÇÃO VERMELHO E BRANCO
QUE BATE FORTE SEM PARAR!

13 de julho de 2011

Lampião e Seus Cabras: Uma Saga de Raça, Resistência, Coragem e Luta!

A violência aplicada na colonização para tomar posse das terras indígenas, ainda pairava no ar seco do sertão.

Nos brejos perenes e em períodos de chuva, o interior nordestino tornava-se promissor e produzia muito, mas entre as fazendas havia muitos bandidos que ameaçavam esse progresso.

Os coronéis, que exploravam e oprimiam o povo, não admitiam as ações desses bandidos em seus territórios, tendo nos jagunços e na volante da polícia a segurança local.

Essa contradição de segurança despertou em homens bravios, o sentimento de injustiça, e o abuso de autoridade por parte dos coronéis gerou rixas, que fizeram surgir o cangaço no contexto histórico nordestino.

O cangaço tomou força no começo do século XX e os grupos atuavam em todo o sertão, foi um acontecimento social que produziu uma cultura ímpar, com indumentária, música, versos, dança e um jeito de ser bem característicos.

Luiz Gonzaga tomou emprestadas essas características e absorveu essa cultura para se lançar no cenário da música brasileira.

Os cangaceiros eram homens valentes que começaram a agir por conta própria, através das armas, desafiando grandes fazendeiros e cometendo agressões. Geralmente, os cangaceiros saíam da lida com o gado.

Eram boiadeiros habilidosos, que faziam as próprias roupas, caçavam e cozinhavam, tocavam o pé-de-bode (sanfona de oito baixos) em dias de festa, trabalhavam com couro, amansavam animais, desenvolvendo um estilo de vida miliciano e, apesar da vida criminosa, eram muito religiosos.

A astúcia e a ousadia nos ataques às fazendas e cidades era outra característica desses guerreiros, que quase sempre saíam vitoriosos das investidas, mas às vezes levavam desvantagem, por isso tinham uma vida cigana, de estado em estado, de fronteira em fronteira.

Vestiam-se com roupas de tecido grosso, ou até com gibão, calçavam alpercata, usavam chapéus de couro com abas largas e viradas para cima, gostavam de lenços no pescoço, de punhais compridos na cintura, cartucheiras atravessadas ao peito disputando espaço com as cangas, que eram as bolsas, cabaças e outros suportes, utilizados para transportar os objetos pessoais.

Pelo Nordeste havia vários grupos de cangaço, porém o mais famoso foi o de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, um pernambucano que desafiou todos os poderes políticos. Ficou conhecido pela bravura, a qual Luiz Gonzaga venerava e cantava.

O banditismo parece ser um fenômeno universal. É difícil encontrar um povo no mundo que não teve (ou tenha) bandidos: indivíduos frios, calculistas, insensíveis à violência e à morte. Sem entrar no mérito das atrocidades cometidas pelos colonizadores portugueses, que escravizaram os negros africanos e quase exterminaram os índios nativos do país, a região Nordeste do Brasil vivenciou um período de quase meio século de violência, especialmente no final da década de 1870, após a grande seca de 1877.

O monopólio da terra e o trabalho servil, heranças das capitanias hereditárias, sempre mantiveram o empobrecimento da população e impediram o desenvolvimento do Nordeste, apesar do empenho de Joaquim Nabuco e da abolição da escravatura. As pessoas continuam sendo relegadas à condição de objetos, cujo maior dever é servir aos donos de terras.

Enquanto o capitalismo avançava nos grandes centros urbanos, no meio rural persistia o atraso da grande propriedade: a presença do latifúndio semifeudal, elemento dominador que, da monarquia à república, se mantém intocável em seus privilégios. Os problemas das famílias abastadas são resolvidos entre si, sem a intervenção do poder do Estado, mas com a substantiva ajuda de seus fiéis subordinados: policiais, delegados, juízes e políticos.

No final do século XIX, os engenhos são tragados pelas usinas, porém as relações pré-capitalistas de produção se conservam: os trabalhadores rurais se tornam meros semi-servos. E o dono da terra - o chamado "coronel" - representa o legítimo árbitro social, mandando em todos (do clero à força policial), com o apoio integral da máquina do Estado. Contrariar o coronel, portanto, é algo a que ninguém se atreve.

É importante registrar também a presença dos jagunços, ou capangas dos "coronéis", aqueles assalariados que trabalham como vaqueiros, agricultores ou mesmo assassinos, defendendo com unhas e dentes os interesses do patrão, de sua família e de sua propriedade.

Diante das relações semifeudais de produção, da fragilidade das instituições responsáveis pela ordem, lei e justiça, e da ocorrência de grandes injustiças - homicídios de familiares, violências sexuais, roubo de gado e de terras, além de secas periódicas que vêm agravar a fome, o analfabetismo e a pobreza extrema, os sertanejos buscaram fazer justiça com as próprias mãos, gerando, como forma de defesa, um fenômeno social que combatia na base do fogo contra fogo as injustiças sociais do sertão, era respeitado pelos mais humildes  e botou terror nas elites da época: o cangaço.

Fora o cangaço, dois outros elementos que surgem nos sertões nordestinos são o fanatismo religioso e o messianismo, a exemplo de Canudos (na Bahia) com Antonio Conselheiro; de Caldeirão (na chapada do Araripe, município do Crato, no Ceará) com o Beato Lourenço; e dos seus remanescentes em Pau de Colher, na Bahia. O cangaço, o fanatismo religioso e o messianismo são episódios marcantes da guerra civil nordestina: representam alternativas através das quais a população regional pode retaliar os danos sofridos, garantir um lugar no céu, alimentar o seu espírito de aventura e/ou conseguir um dinheiro fácil.
A expressão cangaço está relacionada à palavra canga ou cangalho: uma junta de madeira que une os bois para o trabalho. Assim como os bois carregam as cangas para otimizar o labor, os homens que levam os rifles nas costas são chamados de cangaceiros.

O cangaço advém do século XVIII, tempo em que o sertão ainda não havia sido desbravado. Já naquela época, o cangaceiro Jesuíno Brilhante (vulgo Cabeleira) ataca o Recife, e é preso e enforcado em 1786. De Ribeira do Navio, estado de Pernambuco, surgem também os cangaceiros Cassemiro Honório e Márcula. O cangaço passa a se tornar, então, uma profissão lucrativa, surgindo vários grupos que roubam e matam nas caatingas. São eles: Zé Pereira, os irmãos Porcino, Sebastião Pereira e Antônio Quelé. No começo da história, contudo, eles representam grupos de homens armados a serviço de coronéis.

Em 1897, surge o primeiro cangaceiro importante: Antônio Silvino. Com fama de bandido cavalheiresco, que respeita e ajuda muitos, ele atua, durante 17 anos, nos sertões de Alagoas, Pernambuco e Paraíba. É preso pela polícia pernambucana em 1914. Um outro cangaceiro famoso é Sebastião Pereira (chamado de Sinhô Pereira), que forma o seu bando em 1916. No começo do século XX, frente ao poder dos coronéis e à ausência de justiça e do cumprimento da lei, tais indivíduos entram no cangaço com o propósito de vingar a honra de suas famílias.

Para combater esse novo fenômeno social, o Poder Público cria as "volantes". Nestas forças policiais, os seus integrantes se disfarçavam de cangaceiros, tentando descobrir os seus esconderijos. Logo, ficava bem difícil saber ao certo quem era quem. Do ponto de vista dos cangaceiros, eles eram, simplesmente, os "macacos". E tais "macacos" atuavam com mais ferocidade do que os próprios cangaceiros, criando um clima de grande violência em todo o sertão nordestino.

Por outro lado, a polícia chama de coiteiros todas as pessoas que, de alguma forma, ajudam os cangaceiros. Os residentes no interior do sertão - moradores, vaqueiros e criadores, por exemplo - se inserem, também, dentro dessa categoria.

Sob ordens superiores, as volantes passam a atuar como verdadeiros "esquadrões da morte", surrando, torturando, sangrando e/ou matando coiteiros e bandidos. Se os cangaceiros, portanto, ao empregar a violência, agem completamente fora da lei, as volantes o fazem com o apoio total da lei.

Nesse contexto, surge a figura do Padre Cícero Romão Batista, apelidado pelos fanáticos de Santo de Juazeiro, que nele vêem o poder de realizar milagres e, sobretudo, uma figura divina. Endeusado nas zonas rurais nordestinas, o Padre Cícero concilia interesses antagônicos e amortece os conflitos entre as classes sociais. Em meio a crendices e superstições, os milagres - muitas vezes, resumidos a simples conselhos de higiene ou procedimentos diante da subnutrição - atraem grandes romarias para Juazeiro, ainda mais porque os seus conselhos são gratuitos. O Santo de Juazeiro, contudo, a despeito de ser um bom conciliador e uma figura querida entre os cangaceiros, utiliza a sua influência religiosa para agir em favor dos "coronéis", desculpando-os pelas violências e injustiças cometidas.

Em meio a essa turbulência, surge o mais importante de todos os cangaceiros e quem mais tempo resiste (cerca de vinte anos) ao cerco policial: Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, também chamado rei do cangaço e governador do sertão. Os membros do seu bando usam cabelos compridos, lenço em volta do pescoço, grande quantidade de jóias e um perfume exagerado. Seus nomes e alcunhas são os seguintes: Antônio Pereira, Antônio Marinheiro, Ananias, Alagoano, Andorinha, Amoredo, Ângelo Roque, Beleza, Beija-Flor, Bom de Veras, Cícero da Costa, Cajueiro, Cigano, Cravo Roxo, Cavanhaque, Chumbinho, Cambaio, Criança, Corisco, Delicadeza, Damião, Ezequiel Português, Fogueira Jararaca, Juriti, Luís Pedro, Linguarudo, Lagartixa, Moreno, Moita Braba, Mormaço, Ponto Fino, Porqueira, Pintado, Sete Léguas, Sabino, Trovão, Zé Baiano, Zé Venâncio,Assum Preto, Maria Bonita, Lampião, Chumbinho, Severino entre outros.

A partir de 1930, a mulher é inserida no cangaço. Tudo começa com Maria Bonita, companheira de Lampião, e depois vêm outras. Muito embora não entrassem diretamente nos combates, as mulheres são preciosas colaboradoras, participando de forma indireta das brigadas e/ou empreitadas mais perigosas, cuidando dos feridos, cozinhando, lavando, e, principalmente, dando amor aos cangaceiros. Elas sempre portam armas de cano curto (do tipo Mauser) e, em caso de defesa pessoal, estão prontas para atirar.

Seja representando um porto seguro, ou funcionando como um ponto de apoio importante para se implorar clemência, as representantes do sexo feminino contribuem muito para acalmar e humanizar os cangaceiros, além de aumentar-lhes o nível de cautela e limitar os excessos de desmandos. As cangaceiras mais famosas do bando de Lampião, juntamente com os seus companheiros, são: Dadá (Corisco), Inacinha (Galo), Sebastiana (Moita Brava), Cila (José Sereno), Maria (Labareda), Lídia, (José Baiano) e Neném (Luís Pedro).

Como as demais sertanejas nordestinas, as mulheres recebem a proteção paternalista dos seus companheiros, mas o seu cotidiano é mesmo bem difícil. Levar a termo as gestações, por exemplo, no desconforto da caatinga, significa muito sofrimento para elas. Às vezes, precisavam andar várias léguas, logo após o parto, para fugir das volantes. E caso não possuíssem uma resistência física incomum, não conseguiriam sobreviver.

Em decorrência da instabilidade e dos inúmeros problemas da vida no cangaço, os homens não permitem a presença de crianças no bando. Assim que seus filhos nascem, são entregues a parentes não engajados no cangaço, ou deixados com as famílias de padres, coronéis, juízes, militares, fazendeiros.

Vale ressaltar que um fator decisivo para o extermínio do bando de Lampião é o uso da metralhadora, que os cangaceiros tentam comprar, mas não obtêm sucesso. No dia 28 de abril de 1938, Lampião é atacado de surpresa na grota de Angico, local que sempre julgou como o mais seguro de todos. O rei do cangaço, Maria Bonita, e alguns cangaceiros são mortos rapidamente. O resto do bando consegue fugir para a caatinga. Com Lampião, morre também o personagem histórico mais famoso da cultura popular brasileira.

Em Angicos, os mortos são decapitados pela volante e as cabeças são exibidas em vários estados do Nordeste e sul do país. Posteriormente, ficam expostas no Museu Nina Rodrigues, em Salvador, por cerca de 30 anos. Apesar de muitos protestos, no sentido de enterrar os restos mortais mumificados, o diretor do Museu - Estácio de Lima - é contra o sepultamento.

Após a morte de Lampião, Corisco tenta assumir durante dois anos o lugar de chefe dos cangaceiros. A sua inteligência e competência, porém, estão longe de se comparar àquelas de Virgulino.

No dia 23 de março de 1940, a volante Zé Rufino combate o bando. Dadá é gravemente ferida no pé direito; Corisco leva um tiro nas costas, que lhe atinge a barriga, deixando os intestinos à mostra. O casal é transportado, então, para o hospital de Ventura. Devido à gangrena, Dadá (Sérgia Maria da Conceição) sofre uma amputação alta da perna direita, mas Corisco (Cristino Gomes da Silva Cleto) não resiste aos ferimentos, vindo a falecer no mesmo dia.

O fiel amigo de Lampião é enterrado no dia 23 de março de 1940, no cemitério da cidade Miguel Calmon, na Bahia. Dez dias após o sepultamento, o seu cadáver foi exumado: decepam-lhe a cabeça e o braço direito e expõem essas partes, também, no Museu Nina Rodrigues.

Naquela época, o cangaço já se encontra em plena decadência e, com Lampião, morre também a última liderança desse fenômeno social. Os cangaceiros que vão presos e cumprem pena conseguem se reintegrar no meio social. Alguns deles são: José Alves de Matos (Vinte e Cinco), Ângelo Roque da Silva (Labareda), Vítor Rodrigues (Criança), Isaías Vieira (Zabelê), Antônio dos Santos (Volta Seca), João Marques Correia (Barreiras), Antônio Luís Tavares (Asa Branca), Manuel Dantas (Candeeiro), Antenor José de Lima (Beija-Flor), e outros.

Após décadas de protestos, por parte das famílias de Lampião, Maria Bonita e Corisco, no dia 6 de fevereiro de 1969, por ordem do governador Luís Viana Filho, e obedecendo ao código penal brasileiro que impõe o devido respeito aos mortos, as cabeças de Lampião e Maria Bonita são sepultadas no cemitério da Quinta dos Lázaros, em Salvador. Em 13 de fevereiro, do mesmo ano, o governador autoriza, ainda, o sepultamento da cabeça e do braço de Corisco, e das cabeças de Canjica, Zabelê, Azulão e Marinheiro.

Por fim, registram-se informações sobre alguns ex-cangaceiros que retornam ao convívio social. Tendo fugido para São Paulo, depois do combate na grota de Angico, Criança adquire casa própria e mercearia naquela cidade, casa-se com Ana Caetana de Lima e tem três filhos: Adenilse, Adenilson e Vicentina.

Zabelê volta para o roçado, assim como Beija-Flor. Eles continuam pobres, analfabetos e desassistidos. Candeeiro segue o mesmo rumo, mas consegue se alfabetizar.

Vinte e Cinco vai trabalhar como funcionário do Tribunal Eleitoral de Maceió, casa com a enfermeira Maria de Silva Matos e tem três filhas: Dalma, Dilma e Débora.

Volta Seca passa muito tempo preso na penitenciária da Feira de Curtume, na Bahia. É condenado, inicialmente, a uma pena de 145 anos, depois comutada para 30 anos. Através do indulto do presidente Getúlio Vargas, porém, em 1954, ele cumpre uma pena de 20 anos. Volta Seca se casa, tem sete filhos e é admitido como guarda-freios na Estrada de Ferro Leopoldina.

Conhecido também como Anjo Roque, Labareda consegue se empregar no Conselho Penitenciário de Salvador, casa e tem nove filhos.

E, intrigante como possa parecer, o ex-cangaceiro Saracura torna-se funcionário de dois museus, o Nina Rodrigues e o de Antropologia Criminal, os mesmos que expuseram as cabeças mumificadas dos velhos companheiros de lutas.

10 de junho de 2010

Santo Dias Vive, mesmo 31 anos depois de seu assassinato!

Morto pela polícia militar em 1979, Santo Dias virou sinônimo da luta operária contra a desigualdade; quase 31 anos depois, uma pequena multidão ainda se reúne no local do crime para não deixar apagar a memória do militante, e sua lembrança continua assombrando os poderosos até o dia de hoje.

Amigos de Santo Dias da Silva pintam a rua para relembrar a luta do operário. Os companheiros dele ainda voltam ao local da sua morte, 28 anos após o tiro pelas costas que encurtou a sua vida, e reforçam, com tinta vermelha, a inscrição no asfalto: "Aqui foi assassinado, pela Polícia militar, às 14h, o operário Santo Dias 30-10-1979+".

O rito ocorre todos os anos desde que Santo Dias da Silva, operário e militante da Pastoral Operária, foi morto pela Polícia Militar em frente à fábrica Sylvania, na Zona Sul de São Paulo. O crime aconteceu enquanto Santo Dias distribuía panfletos convocando operários para uma greve..

Na última terça-feira (30), cerca de 80 pessoas compareceram à antiga portaria da fábrica, que nem está mais lá. A maioria tem cabelos brancos, já passando dos 60 anos, mas continua, de alguma forma, o trabalho deixado pelo operário: "É importante não deixar apagar a chama", afirma o companheiro de luta Nelson Nakamoto, 55, que hoje trabalha na Agência de Desenvolvimento Solitário da CUT.

Depois de pintar o chão, os amigos seguem para o Cemitério de Campo Grande, a poucas quadras dali. No cruzamento com a Av. Nossa Senhora do Sabará, comerciantes se aglomeravam nas portas para ouvir a música: "Companheiro Santo / você está presente / no coração do povo / na voz de nossa gente".

Estandartes de outros mártires, como Chico Mendes e Irmã Dorothy, são colocados ao pé do túmulo de Santo Dias, onde o padre Jaime Crowe, 62, reza uma missa. Quase três décadas depois do assassinato, a memória do lavrador que veio de Terra Roxa (SP), transformando-se depois em operário e lutador, ainda tira lágrimas de alguns amigos.



A história de Santo Dias se cruza com a de vários líderes da esquerda brasileira que fundaram o Partido dos Trabalhadores (PT), criado três meses após o assassinato do operário. Muito ligado à Igreja Católica, Santo militou, nos anos 60, nas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). Na década seguinte, ajudou a fundar a Pastoral Operária da Arquidiocese de São Paulo e, em plena ditadura, participou do Movimento do Custo de Vida, exigindo preços mais baixos e salários mais altos para os pobres. Em 1978, chegou a disputar, pela oposição, a direção do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, mas não venceu.

Em outubro de 1979, pouco depois da edição da Lei da Anistia, Santo era um dos líderes de uma greve que reunia cerca de seis mil metalúrgicos em São Paulo. Em uma panfletagem em frente da fábrica Sylvania, a polícia tentou prender alguns de seus colegas. Num momento de tensão ( o mais correto é isso foi feito num gesto totalmente covarde, pois jamais se atira num homem desrmado !), o PM Herculano Leonel o baleou pelas costas. Santo tinha então 37 anos. Deixou dois filhos e esposa.

A morte do operário ajudou a fervilhar o clima pelo fim da ditadura. Dezenas de milhares de trabalhadores - alguns veículos citam 15 mil, outros 30 mil - compareceram ao velório de Santo Dias na Catedral da Sé, em 31 de outubro daquele mesmo ano. "Quase nada está certo nesta cidade, enquanto houver duas medidas: uma para o patrão, outra para o operário.", discursou Dom Paulo Evaristo Arns, presidindo a missa de corpo presente.

Também estiveram lá líderes da oposição ao regime militar, como Hélio Bicudo, Luiz Eduardo Greenhalgh, e Perseu Abramo, além de dois políticos que ainda iniciavam sua trajetória: Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva.


No cemitério de Campo Grande, onde esse tão aguerrido operário se encontra sepultado, a sua lápide chama atenção entre os jazigos mais pobres.

Em vez de calar os operários, a morte de Santo Dias fortaleceu a voz e a força daqueles que trabalhavam no chão da fábrica. Família, amigos e companheiros logo criaram o Comitê Santo Dias, para pressionar pela condenação de Herculano Leonel e não deixar a história cair no esquecimento.

O PM foi condenado a seis anos de prisão em 1982, mas recorreu e o processo foi arquivado. A história de Santo Dias, não. Seu nome imortalizou-se em ruas, parques, pontes e no Centro Santo Dias de Defesa dos Direitos Humanos da Arquidiocese de São Paulo. A vida do operário foi traduzida em livro por Luciana Dias, Jô Azevedo e Nair Benedicto.

Em 2004, sua filha Luciana Dias, a jornalista Jô Azevedo e a fotógrafa Nair Benedicto lançaram o livro "Santo Dias - Quando o passado se transforma em História". Na obra, elas registram a biografia do líder operário e analisam o contexto do movimento sindical no final da ditadura.

Entre as dezenas de parentes e amigos que comparecem todo dia 30 de outubro à missa sobre a lápide de Santo Dias, alguns comemoram conquistas - como a liberdade que veio com a abertura política - e muitos ainda lutam por necessidades que não foram satisfeitas. "Santo morreu pensando que 28 anos depois a violência teria diminuído, acabado. Minha prece é a de que ele realize seu sonho de paz", declara Mauro de Queirós, 75, companheiro da Pastoral Operária.

Todos, contudo, reafirmam a lição que dizem ter aprendido do operário, como lembra o ex-metalúrgico Eutrópio Barbosa, de 60 anos: "Ele sempre dizia que, se um dia faltássemos, era necessário que houvesse outras pessoas para continuar nosso trabalho.". São mais de setenta, quase três décadas depois que Santo Dias se foi, e nós, do Boteco do Valente, gritamos a plenos pulmôes, pra quem quiser ouvir:


SANTO DIAS, GUERREIRO, DO POVO BRASILEIRO!

14 de maio de 2010

Edson Luís: PRESENTE!

Edson Luís de Lima Souto, 18 anos, participava de uma manifestação junto com estudantes universitários contra o fechamento do Restaurante Universitário Calabouço, onde o estudante comia, dormia, trabalhava e estudava. Distante de ser uma liderança do movimento estudantil era só um estudante paraense que vinha ao Rio de Janeiro estudar, trabalhar e tentar entrar na universidade.

A insistência de Edson Luís na vida foi calada com um tiro no peito pela Polícia Militar do Rio de Janeiro durante o sua última tentativa de manter o mínimo de assistência estudantil que se tinha direito.

Corpo de Edson Luis na Assembléia Legislativa cercado por estudantes
 O corpo que marcou o ano de 1968 foi levado a Assembléia Legislativa do RJ pelos estudantes, por mais que a polícia tenha insistido em levar o corpo os estudantes não permitiram por medo de desaparecimento. O atestado de óbito foi emitido ali mesmo.

No dia seguinte o humorista Arapuã escreve na primeira página do jornal Última Hora:

"ACABOU A GRAÇA

Há um estudante morto. Um tiro no peito de uma criança de 16 anos. (...) Ele era meu irmão. Podia ser meu filho. Hoje não tem graça. O Brasil perdeu a graça.(...)Dentro da boca, embora fechada, os dentes cerrados. Por um menino morto"

O Correio da Manhã concluía seu editorial afirmando que a cidade "não perdoará os assassinos". Ninguém nunca foi julgado.

O assassinato de Edson Luís se espalhou pelo Brasil, 15 capitais marcaram luto. Escolas e Teatros cariocas não abriram marcando o luto, o Rio de Janeiro parou. Manifestações se alastravam por todo o Brasil.

O enterro de Edson foi um marco de protesto, centenas de milhares tomaram as ruas, as casas acenavam em sinal de apoio. O Jornal Última Hora afirmava que "Só Getúlio teve um enterro assim". Ninguém mais queria calar. De qualquer forma o Governo não poupou esforços para conter qualquer manifestação.

A palavra de ordem "Abaixo a Ditadura!" ganha o Brasil, estudantes são repreendidos com muita violência. Os estudantes começam a ser vistos por todos como os que carregam o gérmen da democracia, a classe médias, setores da igreja se solidarizam com os estudantes. A UNE, e a União Metropolitana dos Estudantes (Rio de Janeiro) assumem uma importância grandiosa.

No final de Junho, ainda como reflexo da morte de Edson Luís aconteceu a Marcha dos Cem Mil, que marca a força que o movimento estudantil e os movimentos sociais contra a ditadura assumiam naquele momento.

Por que o 28 de março é o Dia Nacional de Luta dos Estudantes?

1968 foi um ano singular: “o êxtase da história”, como diziam alguns sociólogos franceses.

Em todo o mundo, milhares de estudantes e trabalhadores saíram às ruas para protestar contra a ordem capitalista e seus sistemas de repressão. E também contra o burocratismo autoritário da maioria dos regimes socialistas. “A imaginação e o povo no poder” chamavam. Muitos artistas buscaram uma nova estética comprometida com as questões sociais latentes. Nos EUA, o movimento Hippie pressionava para o término da Guerra do Vietnã. Os negros organizavam-se em movimento e choravam o assassinato de Martin Luther King. As mulheres se libertavam de antigos tabus e opressões, disseminando o uso da pílula, o sexo livre, os relacionamentos abertos, o direito ao divórcio e as lutas pela igualdade de oportunidades e salários em relação aos homens. Inúmeras greves paravam fábricas. Tempo de rebeldia e maré de mudanças!

No Brasil, estávamos no quinto ano de uma brutal ditadura militar, onde a repressão e a tortura eram crescentes, culminando no terrível AI-5 (Ato Institucional nº 5), em dezembro do mesmo ano: um golpe dentro do golpe.

Nesta época febril de utopias,sonhos e lutas, muitos bravos não se calaram, pagando com a própria vida. No Brasil, inúmeras passeatas ocorreram durante esse período. A mais famosa talvez tenha sido a Passeata dos Cem Mil, porém a que demonstrou de forma mais clara a brutalidade do regime militar foi a que aconteceria no dia 28 de março de 1968. Um pelotão da tropa de choque invadiu e metralhou o Calabouço, onde Edson Luís foi cruelmente assassinado.

Edson era um estudante de 16 anos, vindo da região norte, que estudava na escola supletiva que funcionava no anexo do Calabouço - restaurante secundarista financiado por órgãos públicos e localizado perto do Aeroporto Santos Dumont, - onde os estudantes se reuniam para, além de comer, discutir política e conversar. Como não tinha dinheiro, Edson limpava o restaurante em troca da isenção das mensalidades. Segundo alguns freqüentadores do local, não pertencia a nenhuma organização do movimento estudantil. Naquele dia, a FUEC (Frente Unida dos Estudantes do Calabouço, presidida por Elinor Brito) tinha marcado uma passeata de protesto contra a ditadura, reivindicando o término das obras do restaurante, que estava às traças. Durante a concentração, chegou a denúncia que  Edson Luís poderia ser um informante do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social - órgão do governo militar responsável pela investigação repressiva). A pedido de companheiros e para dissipar  dúvidas, ele foi para a linha de frente da manifestação. A tropa de choque da PM logo chegou para impedir o ato. A dois metros de distância um policial atirou contra o peito do rapaz.

Edson foi socorrido ainda com vida pelos companheiros e levado para a Santa Casa de Misericórdia. Lá ele deu seu último suspiro. Depois de um quebra-quebra geral no hospital, foi levado para a Assembléia Legislativa, (à época no Palácio Pedro Ernesto, onde atualmente é a Câmara de Vereadores do Rio, na Cinelândia), onde foi velado em clima de enorme tensão, pois se desconfiava que a PM poderia seqüestrar o corpo.

Cerca de 50 mil pessoas foram ao seu enterro, marcado por protesto e indignação: “Um estudante morreu. Poderia ser seu filho”. Carlos Minc, Chico Alencar, Fernando Gabeira, Vladimir Palmeira e outros, hoje parlamentares, estavam lá.

Durante a missa de sétimo dia, na Candelária, mais um massacre: a PM cercou a igreja, pisoteando com seus cavalos e batendo com cassetete nas pessoas que saíam do culto.

Edson Luís e a data de sua morte , 28 de março, viraram então o símbolo da luta dos estudantes contra a opressão, a tirania e a covardia. Foi o mártir de uma geração que sabia o que queria, que experimentou os limites de todos os horizontes: políticos, sexuais, de comportamentos existenciais, desejando aproximá-los todos, e que não tinha medo de lutar pelos seus sonhos.

Assim, hoje, numa época em que prevalecem o comodismo e a apatia, achamos que esta homenagem é, além de atual, necessária. Resgatar o passado é sempre possibilidade de retratá-lo e aprender lições.

Edson e todas as irmãs e irmãos pagaram com o próprio sangue o desejo de um mundo justo e melhor! Que a força com que lutaram por seus sonhos embale nossas vidas e lutas que lhes dão sentido.