29 de junho de 2010

Nacionalismo e Internacionalismo (José Carlos Mariátegui*)


"A história contemporânea nos ensina, a cada passo, que a nação não é uma abstração, não é um mito; e que a civilização, a humanidade, tampouco são. A evidência da realidade nacional não contraria a evidência da realidade internacional."

Os limites entre nacionalismo e internacionalismo ainda não estão muito esclarecidos, apesar da convivência já velha entre ambas as idéias. Os nacionalistas condenam integralmente a tendência internacionalista. Porém, na prática, fazem-lhe algumas concessões, às vezes encobertas, às vezes explícitas. O fascismo, por exemplo, colabora com a Sociedade das Nações. Pelo menos não se desertou desta sociedade que se alimenta do pacifismo e do liberalismo wilsoniano.

Acontece, na verdade, que nem o nacionalismo nem o internacionalismo seguem uma linha ortodoxa ou mesmo intransigente. Entretanto, não se pode assinalar matematicamente onde se encerra o nacionalismo e onde começa o internacionalismo. Elementos de uma idéia, certas vezes, mesclados à outra.

A causa desta obscura demarcação teórica e prática resulta muito clara. A história contemporânea nos ensina, a cada passo, que a nação não é uma abstração, não é um mito; e que a civilização, a humanidade, tampouco são. A evidência da realidade nacional não contraria a evidência da realidade internacional. A incapacidade de compreender e admitir esta segunda e superior realidade é uma simples miopia, é uma limitação orgânica. As inteligências envelhecidas, mecanizadas na contemplação da antiga perspectiva nacional, não sabem distinguir a nova, a vasta, a complexa perspectiva internacional. Repudiam-na e a negam porque não podem adaptar-se a ela. O mecanismo desta atitude é o mesmo daquela que rechaça automaticamente e aprioristicamente a física einsteniana.

Os internacionalistas – exceto alguns ultraístas, alguns românticos, pitorescos e inofensivos – comportam-se com menos intransigência. Como os relativistas ante a física de Galileu, os internacionalistas não contradizem toda a teoria nacionalista. Reconhecem que corresponde à realidade, porém somente na primeira aproximação. O nacionalismo apreende uma parte da realidade, porém, nada mais que uma parte. A realidade é muito mais ampla, menos finita. Em uma palavra, o nacionalismo é válido como afirmação, mas não como negação. No capítulo atual da história tem o mesmo valor do provincianismo, do regionalismo em capítulos pretéritos. É um regionalismo de novo estilo.

Porque ainda em nossa época se exacerba e se superestima este sentimento que, por toda sua existência histórica, deveria ter voltado um pouco mais passivo e menos ardente? A resposta é fácil. O nacionalismo é uma face, um lado do vasto fenômeno reacionário. A reação é denominada sucessiva ou simultaneamente de chauvinismo, fascismo, imperialismo, etc. Não é por acaso que os monarquistas da L’Action Française são, ao mesmo tempo, agressivamente jingoístas** e militaristas.

Opera-se, atualmente, um complicado processo de ajustamento, de adaptação das nações e seus interesses a uma convivência solidária. Não é possível que esse processo se realize sem uma extrema resistência de mil paixões centrífugas e de mil interesses segregacionistas. A vontade de dar aos povos uma disciplina internacional acaba por provocar um clamor extremado do sentimento nacionalista que, romântica e anacronicamente, resultaria no isolamento dos interesses da própria nação dos do resto do mundo.

Os partidários desta reação qualificam o internacionalismo de utopia. Mas, evidentemente, os internacionalistas são mais realistas e menos românticos do que parecem. O internacionalismo não é unicamente uma idéia, um sentimento; é, sobretudo, um feito histórico. A civilização ocidental internacionalizou e solidarizou a vida na maior parte da humanidade. As idéias, as paixões propagam-se veloz, fluida e universalmente.

A cada dia é maior a rapidez com que se difundem correntes do pensamento e da cultura. A civilização tem dado ao mundo um novo sistema nervoso.

Transmitidas por cabos, pelas ondas hertzianas, pela imprensa, etc. Toda grande emoção humana percorre instantaneamente o mundo. O hábito regional decai pouco a pouco. A vida tende à uniformidade, à unidade. Adquire o mesmo estilo em todos os grandes centros urbanos. Buenos Aires, Quebec, Lima copiam a moda de Paris, seus alfaiates e estilistas imitam os modelos de Paquín***; esta solidariedade, esta uniformidade não são exclusivamente ocidentais. A civilização européia atrai, gradualmente, à sua órbita e aos seus costumes todos os povos e todas as raças. É uma civilização dominadora que não tolera a existência de nenhuma civilização concorrente ou rival. Uma de suas características essenciais é sua força de expansão. Nenhuma cultura jamais conquistou uma extensão tão vasta da Terra. Um inglês que se instala em um canto da África, leva consigo o telefone, o automóvel, o pólo. Juntamente com as máquinas e as mercadorias, deslocam-se as idéias e as emoções ocidentais. Aparecem estranha e insolitamente vinculadas a história e o pensamento dos mais diversos povos.

Todos estes fenômenos são absoluta e inconfundivelmente novos. Pertencem exclusivamente à nossa civilização que, desse ponto de vista, não se parece a nenhuma das civilizações anteriores. E com esses feitos, coordenam-se outros. Os Estados europeus acabam de constatar e reconhecer, na conferência de Londres, a impossibilidade de restaurar suas economias e produções respectivas sem um pacto de assistência mútua. Por conta de sua interdependência econômica, os povos não podem, como antes, atacarem-se e se ofenderem impunemente. Não por sentimentalismo, mas sim por exigência de seu próprio interesse, os vencedores tem que renunciar ao prazer de sacrificar os vencidos.

O internacionalismo não é uma corrente novíssima. Há um século, aproximadamente, percebe-se, na civilização européia, a tendência a preparar uma organização internacional da humanidade. Tampouco é o internacionalismo uma corrente exclusivamente revolucionária. Há um internacionalismo socialista e um internacionalismo burguês, o que não tem nada de absurdo nem de contraditório. Quando se averígua sua origem histórica, o internacionalismo provém de uma idéia liberal, é consequência dela. A primeira grande incubadora dos embriões internacionalistas foi a escola de Manchester. O Estado liberal emancipou a indústria e o comércio das travas feudais e absolutistas. Os interesses capitalistas se desenvolveram independentemente do crescimento da nação. A nação, finalmente, não mais podia contê-los dentro de suas fronteiras. O capital se desnacionalizava. A indústria se lançava à conquista de mercados estrangeiros. A mercadoria não conhecia limites e batalhava para circular livremente através de todos os países. A burguesia fez-se, então, livre-cambista. A liberdade de mercado, como idéia e como prática, foi um passo ao internacionalismo, no qual o proletariado já reconhecia um dos seus fins, um de seus ideais. As fronteiras econômicas se debilitaram. E este acontecimento fortaleceu a esperança de anular um dia as fronteiras políticas.

Somente a Inglaterra, o único país onde se realizou plenamente a idéia liberal e democrática, entendida e classificada como idéia burguesa, chegou ao livre mercado. A produção, devido à sua anarquia, sofreu uma grave crise, que provocou uma reação contras as medidas livre-cambistas. Os Estados voltaram a fechar suas portas à produção estrangeira para defender sua própria produção. Veio um período protecionista, durante o qual se reorganizou a produção sobre novas bases. A disputa dos mercados e das matérias-primas adquiriu um duro caráter nacionalista. Porém, a função internacional da nova economia voltou a encontrar sua expressão. Desenvolveu-se, gigantescamente, a nova forma do capital, o capital financeiro, a finança internacional. A seus bancos e consórcios confluíram poupanças de distintos países para serem investidas internacionalmente. A guerra mundial rasgou parcialmente este tecido de interesses econômicos. Logo, a crise pós-guerra revelou a solidariedade econômica das nações, a unidade moral e orgânica da civilização.

A burguesia liberal, hoje e ontem, trabalha para adaptar suas formas políticas à nova realidade humana. A Sociedade das Nações é um esforço, certamente vão, para resolver a contradição entre a economia internacionalista e a política nacionalista da sociedade burguesa. A civilização não se resigna a morrer deste choque, desta contradição. Por isso, cria todos os dias organismos de comunicação e de coordenação internacionais. Além das duas Internacionais dos trabalhadores, existem outras Internacionais de outras hierarquias. A Suíça aloja as “centrais” de mais de oitenta associações internacionais, Paris foi, não faz muito tempo, a sede de um congresso internacional de professores de dança. Os bailarinos discutiram, longamente, seus problemas em diversos idiomas. Unia-os, acima das fronteiras, o internacionalismo do fox-trot e do tango.

* Publicado originalmente em Mundial: Lima, dez de outubro de 1924. Sobre esse tema, revisar “Nacionalismo y Vanguardismo” em “Perunicemos al Perú”, págs. 72-79, vol. 11. Desta série popular de obras completas.

** De acordo com o Moderno Dicionário da língua portuguesa Michaelis, jingoísmo significa “patriotismo belicoso”.

*** Jeanne Beckers, mais conhecida como Madame Paquin, nasceu em Saint Denis, França, em 1869 e foi uma das primeiras estilistas da história da moda com forte influência da art deco nas suas criações, do início do século XX.

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